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Antes de ser mãe, eu continuo sendo mulher

J. K. Monteiro



Percebi que é comum a mãe sentir culpa por suas escolhas quando se refere à criação e ao cuidado de suas crianças.


Hoje é o meu segundo dia da mães e o dia já está acabando. Ainda acho estranho como a maternidade altera silenciosamente o fluxo do tempo. Antes do meu filho nascer, um dia parecia que dava a impressão que eu podia realizar inúmeras coisas. Agora quase tudo gira em torno de horários, necessidades, cansaço e pequenas urgências domésticas que nunca terminam completamente. Em muitos momentos sinto que a maternidade ressignificou como o meu corpo ocupa o mundo ao redor.


Tenho um bebê de 1 ano e 1 mês. Sou uma mulher não mono tentando sobreviver emocionalmente aos desafios diários da maternidade real. E quase nunca se parece com as imagens emocionalmente filtradas que aparecem nas redes sociais. Existe muito amor no cuidado, mas também existe sobrecarga, exaustão, culpa e solidão. Principalmente quando a rede de apoio funciona mais como um discurso bonito. Isso verifico que algumas mães tem mais privilégios do que outras em relação à rede de apoio, enquanto umas tem uma rede de apoio 24 horas por dia e 7 dias por semana, outras tem de vez em quando ou quase nunca.


Durante muito tempo ouvi que mães precisam de apoio. Depois da maternidade percebi que muitas mulheres precisam implorar pelo mínimo para conseguir tomar banho em silêncio, descansar algumas horas ou trabalhar sem interrupções constantes. A ideia de rede de apoio costuma aparecer acompanhada de frases acolhedoras nas redes sociais, porém boa parte das mães continua passando o dia inteiro sozinha com suas crianças. E esse é o meu caso. Em alguns casos existe ajuda pontual, em outros apenas adaptação contínua ao cansaço. Ao menos essa tem sido a minha experiência.


Um dos motivos de trabalhar como Freelancer foi justamente tentar permanecer próxima da maternidade. Eu era funcionária pública e exonerei do meu cargo público em 2020, parte disso foi para realizar o meu sonho de ter o meu próprio negócio e ser a minha própria chefe, mas também para cuidar das minhas crianças em casa. E meu primeiro filho nasceu ano passado. Achei que conseguiria equilibrar cuidado, trabalho e individualidade com mais facilidade. No começo trabalhava de madrugava depois que ele caía no sono. Dormia pouco, acordava cansada e tentava repetir a rotina no dia seguinte como se fosse possível continuar funcionando normalmente. Depois comecei a trabalhar nos cochilos dele durante o dia, mas os cochilos diminuíram e as contas continuaram chegando.


Recentemente meu filho entrou na escolhinha. Parte dessa decisão nasceu porque preciso trabalhar mais para garantir estabilidade financeira. Outra parte nasceu do próprio esgotamento acumulado ao longo desses meses, além dos trabalhos acumulados e projetos esperando serem realizados. Isso me refiro até na escrita desta coluna em que tive ideia de criar sobre maternidade não mono desde quando ele nasceu.


Existe culpa até mesmo quando surge alívio. Cheguei à conclusão que em qualquer cenário eu sentiria culpa, seja ele continuar em casa e eu não conseguindo trabalhar ou ele na escolinha para eu poder trabalhar. Percebi isso no instante em que comecei a recuperar pequenas partes do meu tempo enquanto ele estava na escolinha. Como se conciliar as minhas atividades rotineiras fosse questionar o meu amor materno. Por outro lado, o fato dele ir à escolinha é benéfico para a socialização com outras crianças e contribuir com a aprendizagem dele, e esses foram fatores que me ajudaram na minha decisão.


O meu marido trabalha de terça a domingo, ele é um excelente pai, mas o serviço dele consome a maior parte da energia e disposição dele. Minha mãe mora em outra cidade, e de vez em quando vem me visitar enquanto poucas vezes eu e meu bebê vamos visitá-la. Contudo, na maioria dos dias ficava sozinha tentando conciliar cuidado maternal, trabalho, preparo das refeições. Aos poucos percebi como a maternidade pode consumir completamente a individualidade feminina sem precisar dizer isso explicitamente. O desaparecimento acontece devagar. Primeiro o tempo diminui. Depois o silêncio desaparece. E a própria presença emocional começa a funcionar apenas no automático.


Em qualquer direção das minhas escolhas existe culpa. Como mãe, desejo oferecer o melhor possível ao meu filho. Como mulher, continuo precisando de espaço emocional para existir além do cuidado. Como pessoa não mono, ainda desejo viver afetos, trocas, presença, intimidade e conexão com outras pessoas. Porém a maternidade também alterou a forma como passei a ser desejada.


O cansaço mudou. O tempo mudou. A disponibilidade emocional mudou. E junto dessas mudanças muitas presenças desapareceram silenciosamente da minha vida. Depois que me tornei mãe, apenas um afeto permaneceu além do meu marido. O restante simplesmente sumiu quando eu me tornei mãe.


Desde então venho tentando entender quantas mulheres também sentem culpa não apenas por serem mães, mas por continuarem querendo existir além disso.

 
 
 

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